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A vida na economia de “decrescimento”, e porque na verdade você deve aproveitar isso

A vida na economia de “decrescimento”, e porque na verdade você deve aproveitar isso

Como se parece um verdadeiro progresso econômico? A resposta convencional é que uma economia maior é sempre melhor, mas essa ideia tem sido derrotada pelo conhecimento de que, em um planeta finito, a economia não pode crescer para sempre.

Na conferência que ocorreu essa semana em Sydney, “Addicted to Growth” (“Viciados em crescimento” em português), está explorando como se movimentar além do crescimento econômico e em direção a uma economia de “estado estacionário”.

Mas o que é uma economia de “estado estacionário”(ou economia estável)? Por que é desejável ou necessária? E como seria viver nela?

A situação global

Nós costumávamos viver em um planeta relativamente vazio de seres humanos; hoje ele está transbordando de tão cheio, com mais pessoas consumindo mais recursos. Nós precisaríamos de uma Terra e meia para sustentar, no futuro, essa economia existente. Todos os anos essa resistência ecológica continua, os princípios da nossa existência e de outras espécies, são enfraquecidos.

Ao mesmo tempo, existem grandes multidões ao redor do mundo que estão independentes de qualquer padrão humano, consumindo menos e com o desafio humanitário de eliminar a pobreza global que é suscetível a aumentar ainda mais o fardo sobre os ecossistemas.

Enquanto isso a população está definida para atingir os 11 bilhões neste século. Apesar disso, as nações mais ricas ainda procuram aumentar suas economias sem limite aparente.

Como uma cobra comendo sua própria cauda, nossa civilização encaminhada para o crescimento sofre a ilusão de que não existem limites ambientais para o crescimento. Mas repensar o crescimento em uma era de limites não pode ser evitado. A única pergunta é se será por planejamento ou por desastre.

Decrescimento para uma economia estável

A ideia de economia estável nos apresenta uma alternativa. Este termo é um pouco equivocado, no entanto, por sugerir que nós devemos simplesmente manter o tamanho da economia existente a parar de procurar crescimento.

Mas, dada a extensão da resistência ecológica – e tendo em mente que a nações mais pobres ainda precisam de algum espaço pra desenvolver suas economias e permitir que os bilhões de pobres possam atingir níveis dignos de existência – a transição vai exigir que as nações mais ricas diminuam radicalmente seus recursos e demandas de energia.

Essa constatação deu origem às chamadas para economia de “decrescimento“. Distinguindo-se da recessão, o decrescimento significa uma fase de contração econômica planejada e igualitária nos países ricos, que eventualmente alcançará um estado estacionário que opera dentro dos limites biofísicos da Terra.

Em um mundo de 7.2 bilhões e contando, precisamos pensar bastante sobre partilha justa.

Em um mundo de 7.2 bilhões e contando, precisamos pensar bastante sobre partilha justa.

Neste ponto, os principais economistas irão acusar os defensores do decrescimento de mal-entendidos sobre o potencial da tecnologia, mercados, e ganhos de eficiência para desassociar o crescimento econômico do impacto ambiental. Mas não há nenhum mal entendido aqui. Todos sabem que nós poderíamos produzir e consumir com mais eficiência do que fazemos hoje. O problema é que a eficiência se perde sem suficiência.

Apesar de décadas de avanços tecnológicos extraordinários e grandes melhorias de eficiência, as demandas de energia e recursos da economia global ainda estão crescendo. Isso acontece porque dentro de uma economia voltada para o crescimento, ganhos de eficiência tendem a ser reinvestidos em mais consumo e mais crescimento, ao invés de tender à redução de impacto.

Esta é a definição criticamente falha da economia de crescimento: a falsa declaração de que todas as economias do mundo podem continuar crescendo enquanto reduzem radicalmente o impacto ambiental a um nível sustentável. O grau de dissociação necessário é simplesmente muito grande. Enquanto nós tentamos, sem sucesso, “esverdear” o capitalismo, nós vemos a face de Gaia desaparecendo.

Aqueles estilos de vida que uma vez foram considerados a definição do sucesso agora estão provando ser nosso maior fracasso. Tentar universalizar a afluência seria catastrófico. Absolutamente de forma alguma que as 7.2 bilhões de pessoas poderiam viver do modo Ocidental, muito menos as 11 bilhões esperadas para o futuro. O verdadeiro progresso consiste além do crescimento. Remexer nas bordas do capitalismo não vai rompê-lo.

Nós precisamos de uma alternativa.

Suficiente para todos, para sempre.

Quando alguém ouve o chamado decrescimento, é fácil pensar que essa nova visão econômica deve ser sobre dificuldades e privações; que significa voltar à idade da pedra, nos submetermos a uma cultura estagnada, ou ser contra o progresso. Não é bem assim.

O decrescimento iria nos libertar do fardo de alcançar o excesso material. Nós simplesmente não precisamos de tanta coisa – certamente não, se isso vem do custo da saúde planetária, da justiça social e do bem-estar pessoal. Consumismo é uma falha grosseira da imaginação, um vício debilitante que degrada a natureza e nem sequer satisfaz a súplica universal por sentido.

Precisamos realmente comprar todas essas coisas?

Precisamos realmente comprar todas essas coisas?

O decrescimento, por outro lado, envolve assumir aquilo que tem sido chamado de “caminho mais simples” – produzindo e consumindo menos.
Este seria um modelo de vida baseado em humildes necessidades de material e energia mas, no entanto, rica em outras dimensões – uma vida de abundância moderada. É sobre criar uma economia baseada na suficiência, sabendo o quanto é suficiente para viver bem e descobrir que o suficiente é satisfatório.

As implicações do modo de vida de decrescimento e suficiência são bem mais radicais do que as “leves” formas de consumo sustentável, que são amplamente discutidas hoje. Desligar as luzes, tomar banhos mais curtos e reciclar, todas são medidas necessárias para o que a sustentabilidade vai exigir de nós, mas essas medidas estão longe de ser o suficiente.

Mas isso não significa que nós devemos viver uma vida de sacrifício doloroso. A maioria das nossas necessidades básicas pode ser suprida de maneira bem simples e de pouco impacto, enquanto mantemos uma qualidade de vida elevada.

Como seria a vida em uma sociedade de decrescimento?

Em uma sociedade de decrescimento devemos aspirar por tornar nossas economias as mais locais possíveis. Isso contribuiria para a redução intensiva de carbono no comércio global, enquanto também construiria uma resistência diante de um futuro incerto e turbulento.
Através de formas diretas ou participativas democráticas nós poderíamos organizar nossa economia de forma a garantir que as necessidades básicas de todos sejam atendidas, e então redirecionar nossa energia para longe da expansão econômica. Este seria, relativamente, um modo de vida de baixa energia que decorre principalmente de sistemas de energia renovável.

Energia renovável não pode sustentar uma sociedade global de consumistas intensivos de energia e alta tecnologia. Uma sociedade de decrescimento compreende a necessidade de “diminuição (do consumo) de energia”, tornando nossa crise de energia uma oportunidade de renovação civilizacional.

Nós tenderíamos à redução de horas trabalhadas na economia formal, em troca por mais produção em casa e lazer. Nós teríamos menos renda, mas teríamos mais liberdade. Assim, em nossa simplicidade, seríamos ricos.

Sempre que possível, nós produziríamos nossa própria comida orgânica, regaríamos nossos jardins com tanques de água e transformaríamos nossos bairros em paisagens comestíveis, como os cubanos fizeram em Havana. Como meu amigo Adam Grubb declara tão deliciosamente, nós deveríamos “comer os subúrbios“, enquanto supre a agricultura urbana com comida de mercados de fazendeiros locais.

Jardins comunitários, como este em San Francisco, podem ajudar a alcançar a suficiência.

Jardins comunitários, como este em San Francisco, podem ajudar a alcançar a suficiência.

Nós não precisamos comprar tantas roupas novas. Vamos restaurar ou trocar as roupas que temos, comprar de segunda-mão ou fazer a nossa própria roupa. Em uma sociedade de decrescimento, as indústrias de moda e de mercado iriam rapidamente definhar. Uma nova estética de suficiência iria se formar, onde criativamente reusaremos e remodelaremos o vasto estoque existente de roupas e materiais, e exploraríamos formas menos impactantes de produzir novas roupas.

Tornaríamos-nos recicladores radicais e especialistas em “faça-você-mesmo”. Isso, em parte, seria motivado pelo fato de que viveríamos em uma época de relativa escassez, com reduzida renda discricionária.

Mas seres humanos consideram projetos criativos preenchedores e o desafio de construir o novo mundo dentro da concha de velhas promessas imensamente significativo, mesmo que isso demande tempo para testes. A aparente escassez de bens também pode ser bastante reduzida pelo progresso da economia de partilha, o que também enriqueceria nossas comunidades.

Um dia, podemos até viver em casas de adobe construídas por nós mesmos, mas o fato é que ao longo das próximas críticas décadas a maioria de nós estará vivendo nas estruturas urbanas mal planejadas já existentes. Dificilmente nós iremos destruir tudo e começar do zero. Ao invés disso, nós devemos “reformar os subúrbios“, como o líder permaculturista David Holmgren argumenta. Isso envolveria fazer tudo o que pudermos para tornar nossas casas mais eficientes em termos energéticos, mais produtivas, e provavelmente mais densamente habitadas.

Esse não é o eco-futuro que nos é mostrado nas revistas luxuosas de design que exibem “casas ecológicas” proibitivamente caras que chegam a custar milhões de dólares.

O decrescimento nos oferece uma visão mais humilde – e eu diria mais realista – de um futuro sustentável.

Fazendo a diferença

A transição da economia de decrescimento para uma economia estável pode acontecer de várias maneiras. Mas a natureza da visão dessa alternativa sugere que as mudanças vão precisar ser encaminhadas “de baixo para cima”, ao invés de impostas “de cima para baixo”.

O que eu tenho escrito acima destaca alguns aspectos pessoais e domésticos de uma sociedade em decrescimento baseada em suficiência (para muito mais detalhes, veja aqui e aqui). Enquanto isso, o movimento das “cidades em transição” mostra como comunidades inteiras podem se envolver com a ideia.

Mas é fundamental reconhecer as restrições sociais e estruturais que atualmente tornam muito mais difíceis do que se precisa de se exercer um estilo de vida de consumo sustentável. Por exemplo, é difícil dirigir menos na ausência de ciclovia seguras e de bom transporte público; é difícil encontrar um equilíbrio na vida profissional se o acesso básico à moradia nos sobrecarrega com débito excessivo; e é difícil re-imaginar a vida boa se somos constantemente bombardeados com propagandas insistindo que “ter coisas legais” é a chave para a felicidade.

Ações pessoais e domésticas, por si só, nunca serão suficientes para atingir uma economia estável. Nós precisamos criar novas estruturas e sistemas pós-capitalistas que promovem, em vez de inibir, a maneira mais simples de se viver. No entanto, essas mudanças mais amplas nunca vão surgir até que tenhamos uma cultura que as exija. Então, em primeiro lugar, a revolução necessária é uma revolução na consciência.

Eu não apresento essas ideias sob a ilusão de que serão prontamente aceitas. A ideologia de crescimento claramente tem pulso firme em nossa sociedade e além. Pelo contrário, eu apóio o decrescimento como o parâmetro mais coerente para o entendimento da situação mundial, significando a única maneira desejável para se sair desta (situação).

A alternativa é consumir até a morte sob a falsa bandeira de “crescimento verde”, o que não seria economia inteligente.

 

Texto Original: Life in a ‘degrowth’ economy, and why you might actually enjoy it

Autor: Samuel Alexander

Tradução: Júlia Ferraz (Gaiana da turma Brasília 2014)

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